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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Negrume

A África é negra. Muito para além das colorações e conotações pigmentares, acima das cores vivas, dos aromas, é o negrume que mais impressiona. Este é ainda um continente naturalista totalmente comandado pelo ritmo solar. Se eu tivesse de escolher um indicador de desenvolvimento, este será sem dúvida a electricidade... Sem electricidade não há modernidade... sem electricidade vive-se sem Luz! Esta é uma das áreas que mais procura tem e onde mais se investe. Trazer luz onde antes há apenas escuridão.

Da mais básicas de todas as sensações que me acodem... é a falta de luz que realmente me assombra. São as sombras que se agigantam com a noite. As ruas negras como breu são um convite a ficar por casa à volta da luz. Já aqui falei sobre o calor ameno que devolve a natureza noctívaga ao Homem. Mas faltou-me a falar sobre a luz, sem a qual ficamos iguais aos animais na noite perdidos. E mesmo aí em clara desvantagem... sobretudo em África onde os predadores, selvagens e urbanos, preferem o manto estrelar para caçar!

Eu que gosto de penumbra... não me dou bem com tanta escuridão...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SPA

Sanum per aqua... diziam os romanos. Este fascínio humano pela água só pode ter justificação no ventre materno. Nunca deixa de me surpreender o deslumbramento humano quase unanime pela água. Da minha parte, na África ou na Europa, se dúvidas houvesse, fica claro que eu sou um romano!


E ainda algo mais... adoro a paisagem bucólica do Minho. Depois de quase duas décadas de afastamento forçado deste cenário, regressar ao verão minhoto ainda para mais agora banhado em águas tépidas faz-me sentir revigorado. Hoje passo aqui a minha primeira noite de verão em muitos anos. A expectativa é grande... esteve tudo guardado na cabeça à espera: a quente paz nocturna feita do harmonioso frenesim de grilos, alguns pássaros nocturnos, o latir de cães ao longe entremeado com o entoar de avé maria repartido em quartos da hora, as luzes dispersas das aldeias do outro lado do vale, e até linha incandescente das chamas longínquas que aqui chegam apenas romantizadas. Tudo debaixo do nocturno sarapintado de vivas estrelas celestes rasgadas por frequentes estrelas candentes. Posso passar por muitos lados, mas nunca vou deixar de ser daqui.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Pré-Epoca

Eram dois meses de liberdade. As Férias Grandes. Julho e Agosto. Os dois responsáveis por deformar o meu calendário mental - uma elipse feita pelos meses divididos em semanas, que tinha neste período uma forma desproporcionalmente alongada. Parecia-me que por estas alturas do ano o tempo nunca mais acabava... demorava mais a passar e mais preenchido do que nunca. Por oposição... de Setembro a Dezembro a elipse estreitava. Nunca dava conta do tempo passar até ao Natal. Mas sobre a geometria da minha elipse hei de voltar...

Era então em Setembro que acabavam as férias se preparava a nova época. Setembro era tempo de pré-época, sinónimo de que se vivia também uma ou duas semanas de pré-escola. Depois de dois meses repletos de ócio e desleixo o corpo esquecia para que tinha sido feito. Os anteriores 10 longos meses de treino pareciam uma vaga memoria nas formas adelgaçadas com que os membros e dorso chegavam ao final de Agosto. Sempre me surpreendeu a fraca memória muscular. Como era possível num corpo que parece memorizar todas as marcas que lhe deixamos, que nuns parcos 60 dias se tivesse esquecido do que andou a fazer antes?

Avivar a memória, preparar o corpo e a mente para o novo ano, era motivação especifica durante aquelas 3 semanas. Muito trabalho depois haveria de continuar a ser feito durante todo o ano, num constante esforço de repetição de exercícios técnicos, e esforços físicos. Tudo programado para, pela repetição e constante esforço, condicionar o corpo a um estado de superior performance. Eram também... as 3 semanas mais dolorosas da minha existência! Três a quatro vezes por semana éramos esforçados até ao limite físico. A entrega física era baseada na confiança de que a carga era programada pelo treinador e pensada para a nossa idade... mas é com dúvidas que hoje recordo essa devoção.... essa confiança.

Aprendi nessa altura que durante exercício intenso e continuo o corpo, depois de consumir a energia disponível, recorre às reservas musculares para continuar a sintetizar os nutrientes necessários, no processo é libertado ácido láctico que vai entorpecendo de forma dolorosa a massa muscular... se o exercício não é parado, a dado momento o ácido é tanto que os músculos simplesmente paralisam. Era assim que o treino acabava quando, paralisados em dor, os meus abdominais recusavam-se a mexer mais! O paradoxo de tudo isto, é que o corpo durante e depois do exercício liberta endorfinas para regular a percepção de dor, e proporcionar relaxe e prazer. Tal como um bom admirador de S&M, a cada final de treino eu caia exausto na minha cama com um sorriso estampado nos lábios. Eu sentia-me bem!

Intervalados por pequenos momentos de relativa curta duração, passaram-se já uns longos 15 anos desde que deixei de o fazer. De sentir isso. Se 2 meses podiam levar os músculos a esquecer... 15 anos representam um longo definhar num sonolento Alzheimer. Perdida a massa e a forma, resta apenas o prazer de ressentir acordar da dor muscular. Ontem ao final de um pífio tempo de exercício, lá começou o ácido a correr... mas desta feita eu estava ali precisamente para iniciar a minha pré-época... e de braçada em braçada aumentei o esforço e a minha lactose. Impagável o sorriso saído daquela piscina de músculos inchados e doridos...

terça-feira, 18 de maio de 2010

Alfaiate

Por muito que possa apreciar os benefícios da mecanização e reconhecer o salto qualitativo resultante da Industrialização... o produto que sai isolado das mãos de um artífice será sempre para mim valorizado. É verdade que não será perfeito como uma maquina, e por ventura será mais caro por não ser feito por mãos em série... mas existe o que possa ser considerado uma certa veleidade de snobismo, de possuir e envergar o trabalho de outrem feito só para nós. Falta acrescentar que naturalmente eu terei de fazer o meu trabalho para poder pagar o dele. Portanto... é com certeza um snobismo controlado pelo meu mérito, ou falta dele. Claro está que nem sempre é possível recorrer a esse artifice para nos produzir as roupas. Ou por falta de escolha, ou por falta de tempo... ou por falta de mérito (meu) para pagar o mérito (dele). Ainda assim estou certo que com algum tempo e pesquisa, certamente que se encontram boas opções no mercado.


Até lá, pois com o pouco tempo disponível tenta-se recorrer ao que o prêt-à-porte nos pode oferecer de mais parecido. Por vezes arrisco o limite do que o meu mérito pode me oferecer para um quasi-manual, onde ainda fazem um ajuste a pessoa. Não gosto de plasticidades, e coisas forjadas. São peças lindas, feitas com qualidade e arte, e que posso vestir com gosto...

O que não precisavam era de vir com o raio daquele tresponto só para iludir a imaginação do cliente a dar laivos de personalização... e que depois me demorou trinta minutos a tirar e deixou vários furos no tecido!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Death

Em inglês, pois é essa a língua do mundo virtual. Esse mundo que nos deu uma nova dimensão. Abrimos a janela virtual, ou devo dizer a window(s), e lançamos a nossa vida para um novo mundo, desta feita não de oceanos de água, mas de bits e bites que nos dão uma infinidade de novas costas para avistar. Tantas quantas as pessoas, e essas são aos biliões. Depois das pessoas há ainda as consciências colectivas, as comunidades e mesmo os sistemas que por vezes interagimos sem perceber que na realidade não estamos a comunicar com ninguém. Ou melhor... estamos sim, mas é um "alguém" feito de software que interage connosco, uma espécie de consciência individual ainda limitada no raciocínio. Não é necessário ser fã de ficção cientifica para perceber que, ao ritmo alucinante do progresso da computação, em breve estas entidades ganharão vida própria...

Esta descorporização das consciências abre caminho para uma transmutação da vida para o mundo etéreo da virtualidade. Mais uma vez... nada disto é novidade. Muitas foram as visões já adiantadas sobre a modernidade feita na virtualidade. Arrisco contudo que o foco usualmente é sobre a emergência das máquinas, ou dos softwares, esse "alguém" que não existe ainda mas que se anuncia que "vem aí". É com certeza mais fácil de conceptualizar do que a transmutação para a virtualidade... da vida humana. O problema da Alma, da Consciência, o Intelecto humano. Hoje não nos restringimos apenas a ser o que sentimos palpável nas mãos. Ao mesmo tempo que abrimos a window(s) para vermos esse novo mundo, levamos connosco para lá parte, ou até grande parte, do que é a nossa vida. Vivemos com toda a nossa informação registada on-line, mas vivemos também com os nossos blogs, com os nossos emails, as nossas redes sociais, os nossos amigos (virtuais e bem reais), tudo isso... os amigos, os pensamentos, as reflexões, as paixões, os hobbies e os amores estão hoje reflectidos, mas também a viver ali! A tal nova dimensão virtual da vida permite-nos transcender para alem dos limites do físico, somos também virtuais... na vida, e na morte!

Morremos virtualmente tantas vezes quantas quisermos. Com mais ou menos trabalho, podemos ressuscitar para uma nova vida, ou tentar continuar a anterior... mas e quando morremos na realidade? O que acontece à virtualidade?

O Facebook, na sua constante amabilidade de promoção altruísta da amizade pelo planeta, sugere-nos simpaticamente no seu quadro direito os amigos que ele pensa que nos faria bem ter na nossa "rede". Nas últimas semanas, ele insiste que eu me faça amigo de alguém que na verdade... já morreu! Todos os dias me pergunto se devo ser amigo de um morto.

A morbidez da sugestão não me impede de olhar com carinho ao memorial que existe naquela página. É possível que seja também uma homenagem... um cemitério virtual.

No Secúlo XXI... prepara-se a morte em toda a sua amplitude, o fim do corpo e o nosso fim virtual.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Tigre

As madeiras brasileiras tinham um aroma muito intenso. Na altura desconhecia a sua origem noutro continente, mas aprendi que pau santo, ébano, pau rosa e outras que tais, eram sinónimos de longevidade e apreço. Desse cheiro nunca me vou esquecer. Como também me lembro sempre de como reflectiam a luz e contrastavam com o soalho de carvalho, esse sim que rangia corrompido pela idade e ressoava nas batidas das minhas sandálias de couro em corridas circulares pelos longos corredores da casa. No entanto, os móveis eram sobretudo para mim trampolins do meu peso ligeiro ao tentar alcançar as prateleiras poeirentas até então invictas de mãos intrusas. No meio do pó repousavam os brinquedos de balsa, feitos 30 anos antes, pelas hábeis mãos de outra criança. Eram os barcos dela que navegavam o atlântico e que com os seus canhões afundaram o Bismark uma centena de vezes. Eram os aviões que pela sua mão várias vezes eludiram nos ares a Luftwaffe e salvaram in extremis os seus companheiros de asas. Eram o prolongamento da imaginação de quem vivia na sombra do fim de uma guerra nunca vista, fonte de horror desumano, mas que iluminava e encantava a imaginação fértil de um jovem perdido na ruralidade minhota. Assim que a exaustão física atingia o seu cumulo, os brinquedos voltavam às prateleiras, e eu submergia nas historias fantasiosas que saiam das Reader's Digest directamente para as previsões do futuro. Naquelas revistas amarelecidas guardadas religiosamente nas gavetas empenadas (nem todas feitas da mesma madeira exterior...) ditava-se um futuro feito de Zeppelins porta-aviões, e soldados voadores, cidades perfeitas de automação e sociedades de abundância, paz e iluminismo.

Esse futuro nunca chegou a vir, com especial pena pela parte dos zeppelins porta-aviões. Mas veio um mundo em paz feita de tensões entre bons e maus, os do ocidente e os de leste, entre a democracia e as ditaduras totalitárias, entre os livres e os comunistas que ocasionalmente comeriam criancinhas como eu ao pequeno almoço. O oriente, era algo que ficava para lá das fronteiras. Um mundo distante que desde Nagazaki e o paralelo 38 tinha ficado parado, arrefecido na minha história bélica. Cresci assim num universo ocidente-centrico, pacifico, já sem vietnams e descolonizações, confortavelmente habitando um mundo de liberdades conquistadas no sangue do passado e depois garantidas pelo Tio Sam. À medida que os anos passaram e a consciência critica fortaleceu, o mundo acinzentou em degradês de muitas faces. Afinal os maus dizem-se bons agora, e os velhos bons esqueceram-se do que eram e por vezes foram, são, bem maus.

Hoje começa mais um ano chinês. É o ano do Tigre. Um bom motivo para se celebrar com uma carinhosa oferenda aos entes queridos. No momento em que recebo um presente penso no outro quinto da população mundial que está em festa. Interrogo sobre o sentido daqueles festejos. Se eles ainda se guiam pelo o seu calendário, ou se o novo ano já nada mais é do que uma data no calendário gregoriano. Um momento de folclore tradicional, como a Páscoa para os cristãos. Os muçulmanos, mais fracos em numero e cultura, cederam e foram já tomados. O seu arcaico e errante calendário foi já arrematado para a dimensão do folclore. Mas se utilizar o mesmo critério, do numero e da força, questiono-me se daqui a trinta anos a minha criança estará hoje a receber um presente na escola, e trouxer para casa um livro sobre o sucesso do modelo revolucionário chinês...

Não sei obviamente o que o futuro nos reserva. Dizem que os de Tigre são audazes, aventureiros e charmosos. Gostam de assumir riscos e agir antes de pensar nas consequências. Tudo portanto que é necessário para que este seja um bom ano! Eu pela minha parte... continuo a querer ver zepplins porta-qualquer-coisa a ocupar os céus.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Procrastinar

(latim procrastino, -are)
v. tr.
1. Diferir de dia em dia ou deixar para depois. = adiar, postergar, protrairantecipar
v. intr.
2. Usar de delongas. = delongar, demorar, postergarabreviar, acelerar, despachar-se
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